domingo, 7 de agosto de 2016

Carne nova no pedaço

Temos que admitir que, ultimamente, estamos vivendo uma escassez de beleza naquela empresa.
Foi-se os tempos áureos de loiros, altos e engravatados.
Dado isso, quando uma "carne nova" aparece no pedaço é sempre aquele alvoroço.

Sempre tive a impressão de que ele era cheio de si.
Daqueles egocêntricos que se acham a última bolacha do pacote.
Parecia um reizinho desfilando pelos corredores (fiz questão de dizer isso a ele, quando tive oportunidade).

As mulheres (e os homens) não estavam perdoando mesmo.
Passavam, encaravam, mexiam, chamavam a atenção, ofereciam o telefone, se ofereciam...
Só não fazia negócio, se não quisesse.

Por mais que eu "pagasse pau" pra ele, adotei a postura de não demonstrar.
Ignorava.
Quando passava ao lado, fingia não existir ninguém ali.

Especialmente depois dos comentários que ouvi a respeito.
De que ele estava se gabando do sucesso que estava fazendo.
Resolvi, então, desfazer o pedido de amizade, já que, segundo ele, estava ficando insuportável as pessoas o adicionarem.

Dizem que homem é sempre assim: quanto mais é rejeitado, mais interessado fica.

Assim que excluí a solicitação, recebi o convite de volta.
Não iria negar o pedido, mas por mais que estivesse online naquele momento, resolvi demorar um pouquinho para confirmar a amizade.
Aquela bobeira que a gente tem de não querer parecer tão acessível assim... rsrs

Convite aceito.
Segundos depois, já pipocava na tela a janela de bate-papo.

Stalkear faz parte!

Quando você quer fazer um "approach" e não está muito certo sobre como e quando acontecer, as redes sociais contribuem enormemente pra resolver isso. 

O ato permanece o mesmo: XERETAR, mas agora ganhou um nome refinado: STALKEAR.

Aquela xeretada básica no perfil do Facebook, nunca fez mal a ninguém.
Checar idade, estado civil, lugares que costuma frequentar, as últimas fotos postadas...
Após essa "visitinha" despretensiosa conseguimos as informações necessárias para organizarmos um método assertivo de aproximação.

Nunca isso é feito sozinho.
Há sempre aquele seu best friend que vira seu comparsa nessa investigação.

E eu tenho um amigo muito bom nisso.
Quando trabalhamos em conjunto, o resultado é excelente ! rsrsrs.

Ficou na incumbência dele, então, encontrar o perfil do rapaz.
Não demorou muito e o link já estava no meu celular.
Devido às restrições que podemos configurar na nossa conta, não havia muito que eu, como "espiã", pudesse ver.
Algumas fotos de trabalhos como modelo (lindíssmo, por sinal), poucos posts recentes e estado civil não especificado.

E aí vem aquela dúvida: adiciono ou não adiciono aos meus amigos?
Óbvio, que a única razão da dúvida em adicionar é o fato de ficar claro que estávamos stalkeando seu perfil.
Fora isso, a certeza de enviar a solicitação era nítida.

Enfim, foi!
Convite enviado.

Enquanto ele não é aceito, fica martelando uma pergunta: e agora, quando encontrá-lo novamente nos corredores, o que fazer?

Uma pausa na vida virtual

Uma pausa na vida virtual.
Voltemos à vida real.

Desliguemos nossos visores.
Liguemos nossas visões.

Olhemos ao nosso redor...

É notório que toda mulher, consciente ou inconscientemente, nutri uma fantasia sobre homens e fardas.
Há mais do que se imagina do que um simples desejo por aquele uniforme.
É a caracterização do macho alfa.
Da masculinidade viril.
Daquele que sempre vai te oferecer conforto e segurança.
Que vai te proteger te todos os "meninos maus" que encontrar pelo caminho.

Pois bem...
Para se adequar às normas de segurança, a empresa em que trabalho, precisou modificar seu quadro de funcionários. 
Agora, trabalhando 24 horas por dia, haveriam bombeiros civis instalados no local.

Algo de extrema importância considerando-se a preservação de milhares de vida que diariamente exercem suas funções lá.

Não houve apresentações formais, para que soubéssemos a quem recorrer em caso de necessidade ou emergência.

Também não precisava...
Conseguíamos notar, ao longe, aquele belo rapaz fardado desfilando pelos corredores.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

- Um parênteses -

- Um parênteses - 

Nesse mundo virtual, tudo é muito descartável.
Tão fácil como encontrar pessoas, é tirá-las de sua vida.

Sempre acontece na mesma sequencia de fatos...
Parece até uma cartilha de regras aplicada a cada novo "match".

Nos primeiros dias é aquele desejo insaciável de manter contato.
Pela manhã, tarde ou noite, o celular insanamente notifica o recebimento de novas mensagens.
A bateria não dura o suficiente para colocar o papo em dia.
Há sempre aquela busca por um carregador ou uma tomada pra não ficar desligado nenhum minuto.

Após esse momento de frenesi, vem o momento de "evoluir" o papo.
Sim. Descobri nessas experiências que, como num jogo de video game, esses pseudo-relacionamentos virtuais também passam por fases.
Iniciam-se nas mais simples, como apanhar moedinhas, até chegar às mais complexas, ao "chefão".

O "apanhar moedinhas" é aquele checklist, quase que um interrogatório policial. 
De onde você é, com quem mora, onde trabalha, se estuda, se tem filhos, se já foi casada, o que gosta de fazer, o que gosta de ouvir, por que está solteira, por que terminou seu último relacionamento, dentre outras inúmeras perguntas que poderia ficar, infinitamente, listando aqui.
Só falta responder o saldo da sua conta bancária e o resultado do seu último exame de sangue.

O "chefão" começa sempre com um sutil "tem foto de corpo inteiro?".
Porque é preciso avaliar a "mercadoria" de cabo a rabo, literalmente.
Isso quando se encontra alguém sutil.
Do contrário já pipoca na sua tela uma foto do berimbau, esperando que você retribua a "gentileza" com o retrato da sua grutinha. rsrsrs.

Não mandou nudes? Bloqueada!

Ainda na fase "chefão", é chegada a hora de trocar o touch pelo toque. Cabe a você decidir com quanto tempo irá querer ter seu primeiro encontro real: em horas, dias, semanas ou meses...

Demorou pra sair do virtual pro real? Deletada!

Apesar de todos, teoricamente, dizerem aceitar essas "regras" virtuais, na prática, a minoria está disposta a negociá-las.

Next!

Entre encontros e desencontros...
Chegadas e partidas...
Muitos passageiros ocuparam as poltronas desse vôo até então fracassado.

A lista não foi pequena.
Tantos permaneceram anônimos... Eram apenas mais um "+55 xx xxxxxx" no meu telefone.
Outros ganhavam nomes. 
Geralmente acompanhados de um sobrenome "T" para identificar a origem daquele contato.



Poltrona 1:
Combinado no dia 31/12. Aquele paulistano que veio passar as festas de final de ano com a família no interior. Um dos primeiros a te desejar um Feliz Ano Novo.

Poltrona 2:
Combinado no dia 02/01. Mecânico de aviação, recém chegado à cidade para trabalhar em uma companhia aérea local. Sempre ficava feliz em ouvir minha voz.

Poltrona 3: 
Combinado no dia 15/02. Ribeirãopretano vivendo em Boston. Passando férias na cidade. Encantado com meu sorriso e alegria nas fotos, dizia fazer questão de me conhecer.

Poltrona 4:
Combinado no dia 05/03. Árabe. Cirurgião buco-maxilo-facial (que dificuldade para falar isso) que chegou à cidade para fazer especialização. Vindo de uma terra onde tinha poucas (ou nenhuma!) opções, só reclamava daqui. Chato!

Poltrona 5: 
Combinado no dia 20/04. Formado em Educação Física. Alto, com ares de viking. Mochileiro viajante. Sua foto com um filhote de coala era o charme do seu perfil.

Poltrona 6: 
Combinado no dia 05/07. Eduardo. 5 anos mais novo. Advogado formado. Não atuante. Preferia administrar sua empresa. Tímido, mas falante. 

Mal sabia eu que este último passageiro ia me dar trabalho...

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Uma mala no caminho

Como é de praxe em toda viagem que faço, minha mala sempre causa uma história pra contar.
Quando não é extraviada e roubada, perde as rodinhas pelo decorrer do caminho.
Dessa vez, não foi diferente. Parecia ter sido atacada por um pitbull feroz, destruindo tudo que via pela frente.


Evitei tocar nesse assunto durante nossas conversas para não parecer uma interesseira, buscando uma maneira de resolver esse problema.
Porém, ele prontamente se dispôs a me ajudar no atendimento interno a funcionários da empresa.
Trocamos algumas informações sobre esse acidente, protocolos de reclamação pra lá, fotos do furgão de reparos de mala pra cá, mala pra cá, mala pra lá, e pronto! 
Problema resolvido.
Mala devolvida em perfeito estado. Tinindo como nova.

Como minha mãe sempre me ensinou, quando recebemos a Tupperware cheia, precisamos devolvê-la cheia.
Então, eu precisava agradecer a sua prestatividade.

Sempre que estava numa situação ruim ou desconfortável, ele falava pra eu pensar em pizza, que tudo ficava melhor com pizza.
Taí! Pizza!
Vou agradecê-lo convidando-o para comer uma pizza.

Dessa vez, pensei cuidadosamente em cada palavra que escrevia.
Escrevi a mensagem da maneira mais sutil possível.

Enviada.

Óbvio que mesmo que ele rejeitasse o convite, o faria da maneira mais elegante possível.

"Vamos combinar, sim! Vou ver direitinho aqui e te aviso."

E essa confirmação não chegou naquela semana.
Lembra daquela minha teimosia e insistência? Olha ela aqui de novo...
Na semana seguinte o convite se repetiu.
E novamente um vácuo se repetiu.

Estava evidente a falta de interesse para a gordice italiana (à pizza e à mim! rs)...
Compreensível.
Oportunidades não aparecem duas vezes.
Se você não soube aproveitá-las da primeira vez, não adianta chorar o leite derramado.

E, pelas coincidências da vida, um ano depois, novamente Maio, quem encontro pelas ruas do centro da cidade? rsrsrsrs...

PS: Se um dia ler essa história, saiba que sua hombridade é admirável e que me arrependo por não ter feito de uma maneira melhor esse nosso encontro! ;-*

Tentando encontrar explicação

Por que?
Ainda estava tentando encontrar uma explicação para aquele fato.

Não encontrava.

A questão é que isso me caiu como um tapa de luva de pelica.
Me mostrando como eu havia sido rude e ele, mesmo com tanto desprezo, ainda teve generosidade de me cumprimentar.

Como um choque de arrependimento, vi que precisava me retratar.
Mas, como, se até seu número de telefone eu já havia deletado?

Redes Sociais!
Da mesma maneira que nos encontramos anteriormente, faríamos agora.
Hoje em dia não há uma criatura sequer que não tenha um perfil no Facebook.
Apesar de não lembrar qual era seu sobrenome, é bem simples encontrar qualquer pessoa que use seus dados verdadeiros na descrição.
Uma combinação de nome + cidade, ou nome + empresa e BINGO! 
Perfil encontrado.

Nesse ponto, ter a cara de pau de adicionar e mandar mensagem não era nada diante do que já tinha acontecido.

Convite de solicitação de amizade enviado.
Aceito.

Mensagem enviada:
"Bacana te encontrar. Gostei de rever você!"
Mensagem visualizada e respondida.
Como acontecia anteriormente.

Vamos pegar o primeiro avião...

O que nos tornara tão próximos, agora nos fazia tão distantes.

Aquele silêncio continuou por dias... Por semanas... Por meses.
Não nos falamos mais.
Não nos vimos mais.

Vez ou outra, alguma memória ainda voltava.
Porém, nenhuma expectativa de reencontro.

Esse mundo virtual me pareceu bastante descartável após esse acontecimento.

Já havia passado 6 meses desde que nos encontramos.
Já quase não lembrava sequer da sua fisionomia.

Maio. Eram minhas férias. Saguão do aeroporto de Ribeirão. Aguardando o embarque para o voo a São Paulo.
De repente, vindo pelas minhas costas, alguém me puxa pelo braço. 

"E aí, como é que você tá?"
Tive um pequeno delay para assimilar a informação.
Fred! Lembrei!

Espantada, exclamei há quanto tempo não nos falávamos.
Tivemos uma conversa rápida.
Viagem de férias ou a trabalho. Qual o destino. Quem já tinha ido. Quem não. Como estava o filho. Se o olho estava bem.
O máximo de assunto possível naqueles 5 minutos.

Apesar de ser provável, jamais esperaria encontrá-lo novamente.
E, principalmente, dele vir me cumprimentar. 
Afinal, se eu fiz mesmo caras e bocas como todos disseram, ele tinha inúmeros motivos para se afastar. Não aproximar.

Pegamos o voo.
E durante todas as quase duas horas que duraram aquela viagem algo ficou remoendo meus pensamentos: Por que?

A primeira impressão

É comum do ser humano criar expectativas sobre algo ou alguém.
Também é comum que o não atingimento dessas expectativas cause frustrações.

Não vou negar que o tinha imaginado mais alto, mais forte e, até, mais bonito.
E é feio dizer que a primeira impressão que tive dele foi um pouco decepcionante.

Aliado a isso, ele recebeu toda a minha carga de tensão, medo, insegurança de ser o primeiro encontro que saiu do virtual para o real.
Por mais que você mantenha a mesma cautela em outros encontros, o "desconhecido" da primeira vez sempre vai te fazer agir de maneira mais defensiva.

Resultado: voltei contando aos colegas de trabalho que não havia gostado.
Segundo eles, eu nem precisava dizer, estava estampado na minha cara.

E sabe aquela história do "devo ligar no dia seguinte?"
Era assim que me encontrava.
Sem reação.
Não sabia se mandava mensagem.
Se esperava ele mandar.
Não sabia qual era o protocolo que devia seguir.

Resolvi esperar aquela adrenalina e misto de sentimentos passar para fazer algo mais racional.
No dia seguinte, escrevi agradecendo mais uma vez o chocolate e perguntando como ele estava.

Qual a resposta recebi?
"Ah, que bom! Achei que meu chocolate tinha te envenenado e você tinha morrido!"

Notei naquele momento que não tinha tomado a melhor decisão.

"Posso passar aí pra te ver?"

Refeitos do cansaço e da tediosa segunda-feira, continuamos ininterruptamente nosso papo.

Não precisávamos pensar sobre o que iríamos falar em seguida.
Um assunto puxava o outro e já nem lembrávamos como tudo começou.

"Terça-feira estou de volta a Ribeirão. Tenho retorno no oftalmo. Posso passar pra te ver? Assim, já aproveito e entrego seu chocolate!"

Mesmo com o receio de que ele não pudesse ser um bom sujeito como aparentava, não hesitei e aceitei. O que, a princípio, o espantou. Fazendo-o repetir a pergunta: "posso mesmo?"

"Claro. Se tiver algum problema os seguranças me protegerão de você!"

Eu falava em tom de brincadeira, mas no fundo era verdade. Estava na porta da empresa, em local público e se, realmente um imprevisto acontecesse, eu tinha a quem recorrer.

E, como dito, foi feito.
Após a consulta, era parada obrigatória o meu trabalho.
Toca meu celular, seu número identificado na tela, aquele frio na barriga: 

"Estou aqui na porta"
"Já estou saindo"

Uma passada rápida no banheiro para dar aquela conferida na make, ver se o cabelo estava arrumado e se estava pronta para causar uma boa impressão.

É agora.
Lá estava ele. Calça social. Camisa azul. Óculos de sol.

Não sei se dou a mão, se abraço ou se beijo.
Vou deixá-lo fazer as honras.
Abraço e beijo fraternais foi a melhor opção para a saudação de encontro.

Podia sentir minhas mãos trêmulas e suadas de nervoso naquele instante.

Me entregou o chocolate, perguntou sobre o trabalho e sobre nosso seriado favorito.
Agradeci a gentileza, perguntei como tinha sido a consulta médica e pedi que tirasse seus óculos para verificar como estavam seus olhos.

E, apesar de sermos sempre bons comunicadores, naquele momento parece que o assunto acabou.
E um leve silêncio constrangedor tomou conta de nós.

Nos despedimos e cada um seguiu.
Ele, de volta a São Paulo.
Eu, de volta ao trabalho.



RP -> SP

É tão clichê, mas sempre vale dizer: a internet aproxima quem está distante e afasta quem está próxima.

Ainda que não tivéssemos nos visto, parecíamos bem próximos.

Como acontecia toda semana, a noite de domingo chegou e era hora dele fazer as malas e partir de volta para a capital. 
Dado ao meu exagero e às proporções dramáticas que aplico a tudo, era como se ele estivesse partindo para o Acre, para uma comunidade indígena onde era praticamente impossível ter qualquer contato com a civilização, nem por sinal de fumaça.

Um tanto absurda é essa comparação. Mas, o fato de aumentar a distância, por mais que permanecêssemos conectados, aumentava a sensação de insegurança de que aquele flerte (nossa! me senti um broto da Jovem Guarda usando esse termo) gostoso iria continuar.

Pé na estrada... Alguns bons quilômetros a frente... Algumas horas de viagem...

Optamos por não ficarmos offline nem assim.
Dirigindo, contrariando as normas de trânsito, correndo o risco de acidentes, as mensagens continuaram sendo trocadas.
Agora não mais digitadas.
Áudios.
Para facilitar a comunicação diante de tanto empecilho que havia agora.

A viagem acabou.
O cansaço bateu.
Banho e cama era o que tínhamos agora.

"Você é demais! Casa comigo?"

Feriado, quando não se tem dinheiro para viajar, é sempre aquele marasmo.
Aquele Sete de Setembro de 2014 seria diferente.


Nome: Fred
Idade: 30 e alguns anos (mais novo que eu)
Cidade: Durante a semana em SP, final de semana aqui.
Diretor de Negócios Internacionais de uma companhia aérea.


Poderia dizer que à regra dos fiascos do app, ele foi a exceção.

O assunto fluía com tamanha naturalidade que a tarde de sábado passou num piscar de olhos.
Apesar de o relógio mostrar que já estávamos há horas trocando mensagens, nem notamos esse passar de tempo.

Eu já sabia as frustrações do seu último relacionamento, o costume de levar seu filho pra tomar picolé na sorveteria do lado de sua casa (mesmo que antes nunca o tenha visto por lá), sua paixão por The Walking Dead, seu passado rock'n'roll, sua reação alérgica no olho quando fica estressado, as viagens que havia feito... Enfim, assunto entre a gente era o que não faltava. Era como se nos conhecêssemos há anos. 

E, dentre todos esses temas, achamos um comum: chocolate!
Eu, apaixonada por meio amargo.
Ele, sem conseguir explicar por quê, com uma barra dessas em casa, recém trazida da Tanzânia.

"Parece que eu adivinhei que ia ser pra você!", disse ele tentando explicar a coincidência.

Impossível não baixar as guardas e se render a tanta gentileza. Soava como um discurso de um príncipe. Aquele cavalheiro à moda antiga. Mesmo com tantos dissabores no passado, preferiu trocar a amargura e depressão por elogios rasgados em cada frase dita.




Quem me diz como rejeitar uma proposta dessa? 
"Siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim", respondi em alto e bom tom!
Se o mundo real iria compactuar com essa ideia, não sei.
Mas, no virtual, ela poderia, naquele momento mesmo, acontecer.

... E pra quem perguntar nos conhecemos na biblioteca!

Os dias foram passando...

Muitos “pra direita”, muitos “pra esquerda”.

É fato que chegou uma hora em que estava até difícil administrar tantas conversas ao mesmo tempo.
Sempre ficava aquele receio de trocar nomes, repetir perguntas ou contar as mesmas histórias mais uma vez.

Havia uma maneira simples de resolver isso. Tratar todos como “amor”, “lindo”, “querido” ou qualquer outro apelidinho meloso usado como tática para evitar gafes.
Como pra mim sempre foi complicado ter essa demonstração afetuosa sem ter intimidade, preferia colocar todos os meus neurônios em ação, botar a caixola pra funcionar e me esforçar ao máximo para não dar nenhum fora.

Funcionou.
O que nunca funcionou era sempre responder à temida pergunta: “Onde vocês se conheceram?”

Por que uma simples pergunta como essa pode trazer um peso tão grande na sua resposta?

Para muitas, conhecer um cara no bar da esquina ou conhece-lo no app não tem diferença nenhuma.
O meio para conhecer novas pessoas não importa.
Mas, para mim, já era algo fora do convencional. Principalmente pela fama que esse app carrega: “caçador de sexo casual”.

Confesso que sempre tive uma certa vergonha de expor, mesmo que seja na roda de amigos, que tinha lá um perfil criado.

Para aliviar a tensão do meu preconceito com tal atitude, naqueles poucos caracteres em que temos que nos descrever, finalizava meu texto com os dizeres: “... E pra quem perguntar nos conhecemos na biblioteca!”

Devo dizer que essa frase quebrou muitos “gelos” e foi o ponto de partida de muitas conversas.

domingo, 31 de julho de 2016

"Oi, moça!"

Foi assim que começou mais uma história...

Quem era ele dessa vez?
Vitor.
26 anos.
Aquele ar misterioso por trás de seus óculos.
Alto. Quase 2 metros de altura.
Tão grande quanto a fama de sua cidade: Itu.

Apesar de não gostar muito de ser tratada como "moça", afinal me parece uma tratativa muito genérica, distante, impessoal, percebia que era o máximo que sua timidez conseguia expressar.

Conseguia relevar esse ponto diante do quanto apreciava nossa conversa.
Admirava o quanto ele já tinha vivido nesses seus 20 e poucos anos.
Conhecia vários países.
Já havia até morado em alguns deles.
Falava vários idiomas.

Bonito, independente, inteligente, educado...
Parecia ser até mentira encontrar alguém tão, aos meus olhos, perfeito assim.

Suas mensagens eram tão bem escritas, que o uso correto do português, diante do que estamos acostumados atualmente, chegava a assustar.
Fiz questão de reconhecer isso.
"É porque eu leio bastante, normalmente ajuda o vocabulário", justificava ele.

Ficávamos até tarde jogando conversa fora.
Geralmente, eu era a primeira a dormir.
Seu hábito de dormir pouco o mantinha acordado por mais tempo que eu.
E nada que atrapalhasse que, no outro dia, logo pela manhã, me mandasse um "bom dia" animado.

Quantos altos e baixos tivemos.
Mal poderia imaginar que hoje, dois anos depois, ainda teria contato com ele.
Por isso, desse aqui, ainda vou contar mais...
Mais pra frente...

Pra esquerda ou pra direita?

Não sei explicar o que, exatamente, acontece.
Mas, parece que depois do primeiro "match" você é tomado por uma vontade de que muitos outros aconteçam.

A possibilidade (e curiosidade) de conhecer pessoas fora do seu círculo habitual, te torna quase que um caçador de "matches".
É uma busca desenfreada que acaba com sua cota diária de curtidas em alguns minutos.

Pra direita esse.
Pra esquerda esse outro.
Os dedos chegam a ficar exaustos das inúmeras tentativas de uma combinação.

Não demora muito pra novos "cachos" aparecerem.
Sim. Foi dessa maneira que divertidamente apelidamos aqueles que conseguimos manter contato por um tempo razoável.

*cachos: termo pradopolense utilizado para denominar pseudos-relacionamentos

O primeiro "match" a gente nunca esquece!

Dizem que o primeiro "match" a gente nunca esquece!
Posso concordar com essa afirmação.

Nome: Júnior (Na verdade, Wilson. Mas, assim preferia por achar mais jovial)
Idade: 30 e poucos
Cidade: São José dos Campos

Loiro... Alto... Viajado... Independente... Inteligente... Bom de papo...
Como não ser atraente com tantos atributos assim?

Tão pronto trocamos nossos números, começou a compartilhar suas histórias.
Já sabia da sua profissão, do seu último relacionamento, suas qualidades e seus defeitos.
Já tinha visto algumas fotos de suas viagens ou, até mesmo, daquela sexta-feira sagrada, reservada para levar sua filha para brincar no play do shopping.

Atencioso, sempre fazia questão de perguntar como estava sendo meu dia ou quais seriam os planos pro final de semana.

Sexta-feira.
Horário de almoço.
Meu celular me notifica uma nova mensagem recebida.
Um video.

Lá estava ele.
Dirigindo seu carro. (Ok, concordo que isso não é tão bacana. Usar celular dirigindo contraria as normas de trânsito. Mas, confesso, que isso naquele momento nem foi imaginado)
Os cabelos loiros impecavelmente ajeitados como sempre.
Contrastando com sua camiseta preta.
E aqueles óculos espelhados.

"Oi, meu amor! Tudo bem?"
Assim ele começava seu discurso, dizendo passar um pouco do meio-dia e estar a caminho do almoço.
Como era de costume, preocupou-se em perguntar se eu já havia almoçado também.

Por dias, a fio, trocamos muitas mensagens.
Fotos, saudações de "bom dia" e "boa noite", aquela vontade de saber do outro já fazia parte da nossa rotina.

Mas, não demorou muito ele começou a parecer distante.
Após algumas semanas de intenso contato, já não havia muita reciprocidade entre nós.
As mensagens eram visualizadas, mas não mais respondidas.

Puft! E como num passe de mágica, ele desapareceu.
Quando isso acontece fica sempre aquela incógnita: será que foi algo que falei ou fiz que ele não gostou? Será que estou sendo chata demais? Ou meu assunto não é mais interessante? 
Aquela velha mania de fazer a mea-culpa. Achando que a mulher é sempre a responsável por fazer uma relação naufragar.

Lembra da minha teimosia e insistência já relatada num post anterior?
Pois é, nessa história não seria diferente.
Mandei mais uma mensagem... E outra... Insisti numa terceira... Até que ele resolveu se manifestar.

A que se devia seu sumiço? 
Que ele havia encontrado uma pessoa, que estavam se conhecendo e que estava se tornando sério. Portanto, não cabia mais ficar mantendo nosso contato virtual.
Sem dúvida alguma, relacionamentos reais tem um peso significativamente maior que os virtuais. 
Não há nada que compense o toque, o abraço, o cheiro...

Mas nunca entendi qual a dificuldade de falar abertamente sobre isso.
Apesar de entender perfeitamente que a probabilidade de um relacionamento virtual tornar-se real é mínima, considerando-se questões como distância, vida profissional, etc., num mundo frio em que vivemos atualmente, é difícil não se apegar a tanto cuidado e gentileza.

Nunca estamos preparados para ouvir aquilo que não queremos.
É ruim, muitas vezes até parece cruel.
Porém, sempre preferi levar o choque de realidade e, a partir dali, seguir adiante. Do que ficar eternamente com a dúvida do que poderia ter acontecido.

Ao receber aquela última mensagem, foi um balde de água fria.
Na hora só conseguia mentalmente desejar as piores coisas pra ele.
É aquela já conhecida sensação de ter feito papel de trouxa.

Hoje, quando o sangue italiano já esfriou, entendo melhor a atitude dele.
E bola pra frente...
Pessoas se vão, para que novas cheguem!




Pondo na balança...

Sabe aquela velha teoria que diz "o legal da vida é ter histórias pra contar"?
Acho que ela cai como uma luva para mim agora...

Nesses meses de experimentação de paquera virtual, o que não me sobraram foram "causos" pra contar!

Muitos, óbvio e graças a Deus, a minha memória fez questão de apagar.
Outros, entretanto, foram difíceis de esquecer...

Muitos, me fizeram gargalhar de alegria.
Seja por uma piada aparentemente sem graça ou por aquela dancinha razoavelmente coreografada da Anitta exibida num video.
Outros, me fizeram me debulhar em lágrimas de tristeza...

Muitos, me fizeram me sentir a garota mais especial desse mundo.
Outros, acabaram com a minha auto-estima...

Muitos, me compartilharam momentos simples do seu dia-a-dia.
Fotos daquele jantar preparado no capricho, daquele peixe pescado no final de semana, do bolo de aniversário, a carne prestes a ser assada no churrasco em família, do filho, daquela farda especial para enfrentar uma manhã fria...

Outros, fizeram apenas questão de compartilhar "suas partes".
Acreditando que se tornavam mais atraentes vangloriando os centímetros do seu "membro de ouro".

Cada um escolhia seu melhor dote para divulgar.

Coube a mim separar o joio do trigo.
O que eu queria absorver e o que eu queria repelir.
E as melhorias histórias agora são parte da minha bagagem.
São aquelas que poderei contar daqui pra frente...

Uma mistura cultural

Loiro
Negro
Alto 
Baixo
Cabeludo
Careca
Engravatadinho
Roots
De perto
De longe
De muito longe!
Paulistas, mineiros, cariocas, brasileiros! Árabes, ingleses, espanhóis, italianos, chilenos, argentinos...
Vitors, Júniors, Freds, Betos, Andrés, Eduardos...

Não faltavam personalidades e características distintas.
Uma mistura de idiomas, de costumes e de valores infindável.

Daí a graça de lidar com o ser humano.
O enriquecimento com essa troca de cultura.

Claro que alguns passam por você pra te ensinar a não ser igual a eles.
Nada te acrescentam.
Apenas roubam o tempo que você desperdiçou tentando encontrar algo bom naquele contato.

Porém, há outros, que te fazem refletir e te fazem questionar se onde você está, quem você é e onde quer chegar é realmente o que você planejou.

Aaaaaaaah, esses são aqueles que encantam!



Me convença com 3 bons motivos!

Muitas conversas se iniciaram...
Muitas terminaram.

Umas por falta de afinidade.
Sim! É possível em apenas algumas frases constatar se o "seu santo" bate com o dele, ou não.

Outras, porque era impossível lidar com tanto abuso e falta de respeito vindo de tratamentos pejorativos ou assuntos invasivos para dois meros desconhecidos.

Poucas conversas continuaram...
Apesar da vasta "oferta" de corpos, poucas "mentes" valiam manter algum contato.

"Me manda um zap!" era a frase mais comum depois de alguns minutos de conversa.
Sou chata!
Só esse "zap" já seria um bom motivo pra desestimular um papo.
Para ter certeza, então, de que dali poderia sair uma conversa divertida, antes de passar o meu "zap" sempre vinha o desafio:

"Me convença com 3 bons motivos..."



Uma simples frase...
Para uns, respondida de prontidão.
Para outros, algo extremamente difícil de ser respondido.

O que eu esperava com isso?
Perceber o grau de interesse, a criatividade, o bom humor...
Ingredientes esses, que sempre fazem o assunto fluir.
Aqueles que passavam no "crivo de qualidade" recebiam meu "zap".